Intolerâncias de um universo desigual

Machismo, sexismo e misoginia, é preciso entender para poder mudar.

A fama do Brasil é de ser um país que tem um povo hospitaleiro e cordial, tolerante às diferenças de cor, religião, nacionalidade, gênero, orientação sexual, idade e ideologia. Mas será que somos mesmo tolerantes?

Basta assistirmos aos noticiários ou observamos ao redor para constatarmos que, de fato, o nosso país não está livre de preconceitos. E é no ambiente virtual que muitas pessoas aproveitam para apoiar, referendar e dar voz às opiniões de xenofobia, racismo, homofobia, sexismo, misoginia e machismo, dentre muitas outras carregadas de intolerância e não aceitação das outras pessoas.

Se por um lado o debate público envolve as questões dos direitos e conquistas das mulheres, por outro há uma cultura que reforça os estereótipos do comportamento masculino, tendo o homem como dominante, um ser viril e provedor.

Embora os termos sexismo, misoginia e machismo, sobretudo este último, tenham ganhado grande popularidade, eles ainda geram algumas confusões sobre seus conceitos e significados. Por isso,  precisamos explicar cada um deles e suas influências sociais.

O que é sexismo?

Sexismo é a discriminação e objetificação de cunho sexual baseadas no sexo/gênero/orientação sexual. Na maioria das vezes, as ações sexistas são contra mulheres, homossexuais e transgêneros, o que não significa que as mulheres, homossexuais e transgêneros não ajam também de maneira sexista, em alguns casos.

Além disso, o sexismo está presente nas definições de comportamentos padrões por gênero. Por exemplo, quando se pensa em piloto de avião, a imagem associada é de um homem, e imaginar uma mulher exercendo a mesma função causa estranhamento. Isto é uma ação sexista, mesmo que inconsciente, seja ela vinda de um homem ou de uma mulher. Se buscarmos a perspectiva oposta, podemos tentar imaginar com naturalidade homens à frente de uma empresa de cosméticos. Toda essa conceituação estereotipada é sexista, e em maior ou menor gravidade se eternizam no (in)consciente coletivo da sociedade.

Quando se trata do sexismo no ambiente virtual, vemos maiores proporções. Em 2013, Kate Middleton deu à luz o primeiro filho, George, e, ao sair da maternidade, a Duquesa de Cambridge usou uma roupa que não escondia a barriga pós-parto. Nas redes sociais, recebeu uma enxurrada de críticas e comentários negativos a respeito do “descuido”.

Esperavam de Kate um ideal de perfeição inexistente no mundo real.

O que é misoginia?

Essa palavra tem tido popularidade, principalmente nas redes sociais, mas o que ela quer dizer?

Misoginia é aversão, repulsa, antipatia às mulheres e tudo aquilo tido como feminino.

Dito isso, vamos esclarecer um fato: misoginia não está diretamente relacionada à orientação sexual. Um homem misógino não é necessariamente gay, afinal o homem gay apenas não tem desejo, não se atrai por mulheres.

O comportamento do misógino é voltado para a inferiorização, depreciação, ridicularização e humilhação das mulheres, assim como aos sentimentos e características que a elas possam ser remetidos (sensibilidade, compreensão, etc). Vejamos: se uma mulher age de maneira ilícita e desvia dinheiro da empresa na qual trabalha, o misógino a xingará de vagabunda, vadia, cachorra e entre outros adjetivos que atingem apenas as mulheres. Ele não a chamará de ladra, falsa ou desonesta. Para ele, o que a desqualifica, antes de mais nada, é a condição de mulher.

Lembra, quando em 2013 o apresentador Danilo Gentili fez uma “piada” sobre Michelle Maximino, a mulher que doou mais de 300 litros de leite materno em Pernambuco? Em uma única frase ele ridicularizou a mãe, a amamentação e a doação de leite – atributos específicos das mulheres. O que o humorista considerou engraçado não passou de uma atitude completamente misógina e pouco solidária (depois do episódio, Michele passou a ser chamada de vaca em sua cidade). O que se viu ali foi o reforço de um preconceito e uma significação pejorativa de um gesto feminino e, sobretudo, humano.

E o machismo?

Literalmente, o machismo é a qualidade, o comportamento natural de macho (homem). Em sentido mais amplo, contextualizando o termo aos dias de hoje, o machismo é a ideologia da supremacia masculina, na qual se baseiam os pensamentos, as atitudes, os valores e costumes daqueles que acreditam ser superiores às mulheres e ao que elas representam.

Crescemos em um sistema patriarcal que privilegia o masculino e não valoriza o feminino. Por isso, não é de se estranhar que grande parte dos homens (e mulheres também) não aceite e/ou entenda os malefícios gerados pela cultura machista.

Muitos casos de violência, assédio morals e sexual, situações vexatórias e constrangedoras começam a partir da legitimidade social de um comportamento machista. No ambiente de trabalho, por exemplo, são inúmeros os relatos de mulheres que já vivenciaram “brincadeiras” constrangedoras de cunho sexual feitas por chefes e colegas com os quais não possuíam intimidade para tanto. No episódio recente do grupo de brasileiros que assediou a mulher russa, quantas pessoas não viram o fato apenas como uma diversão e consideraram a repercussão exagerada?

Essas pequenas atitudes machistas no dia-a-dia – como as piadas, as aproximações inadequadas etc – criam um caldo de cultura permissivo que favorece outras ações machistas de maior gravidade, como o assédio sexual, o estupro e outras formas de violência contra a mulher.

Agente transformador

O debate sobre sexismo, misoginia e machismo é necessário, não é modinha. Ele é fundamental para que se alcance a igualdade de gêneros e desconstrução de estereótipos. Homens e mulheres tendem a ganhar profissionalmente, pessoalmente e emocionalmente.

Ações educativas podem ajudar os homens a aceitarem e respeitarem a presença feminina, assim como ajudar mulheres a ter o controle total sobre as próprias decisões, sobre aquilo que consideram melhor para elas, seja qual for o aspecto da vida.

Vamos fazer a mudança acontecer. Você não está sozinha! #ElaDecide

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